ELIZANDRA SOUZA

terça-feira, 24 de abril de 2018

Psicanálise e Criminologia

Os diversos crimes que ocorrem diariamente em nossa sociedade nos colocam a refletir sobre quem são esses homens e mulheres que buscam no crime uma forma de expressar suas insatisfações, expressar um modo de ser, justificar suas mazelas, apontar um caminho.
A criminologia, como ciência do crime, tem como objeto de estudo não somente o crime em si, mas tudo o que a ele se refere como o criminoso, a vítima, e as questões sociais de construção ou de controle que interferem na conduta delituosa.
Mas a criminologia, não se faz sozinha. Ao longo de sua existência buscar em outras ciências e outras teorias, conceitos e pressupostos que pudessem sustentar seus estudos. De certo, a criminologia nasce no final do século XIX, mas desde a Idade Antiga já haviam pensadores que colocam em discussão as motivações dos comportamentos criminosos.
A criminologia se coloca à disposição da sociedade ao estudar o crime, observando a realidade que nos cerca e buscando compreender os mecanismos internos (ou subjetivos) e os externos (sociedade) que desempenham influência na construção do criminoso e no crime como resposta à uma insatisfação social.
Na sua interdisciplinaridade, conversa com o direito, com a sociologia, com a psiquiatria, com a antropologia dentre outras ciências que tem o homem e suas relações sociais como objeto de estudo e discussão.
A psicanálise, que também é uma teoria nova (nascida também no final do século XIX), aparece para a criminologia como uma nova possibilidade de olhar este sujeito criminoso e sua posição frente seus atos.
É fato que a psicanálise não deve servir às mais diversas justificativas que tendem a encontrar numa patologia mental a resposta de um ato criminoso. Mas a psicanálise olha o sujeito de forma diferente de todas as outras teorias, principalmente pelas vias pulsionais, do inconsciente e do complexo de Édipo.
Infelizmente, o equívoco na leitura dos textos psicanalíticos, sugere um desvio de responsabilidade penal para o sujeito acometido pelos atributos de que nada sabe (como o inconsciente). Porém, conforme nos ensina Lacan, de sua posição o sujeito é sempre responsável, e mais que isso, é preciso responsabilizar para humanizar o criminoso.
A psicanálise auxilia a criminologia, mas elas não se confundem. Aliás, em alguns pontos até são discordantes. Porém, com a psicanálise, a criminologia pode ampliar sua visão sobre o criminoso e a vítima, enquanto sujeito e não simplesmente como produto social.
A psicanálise nos interroga sobre nossa posição independente de nossos comportamentos, pensamentos, vontades ou desilusões. Ela nos aponta a resposta do sujeito como senhor de si, na medida em que deve responder por seus atos. Pela psicanálise, o sujeito não pode ser somente um objeto da sociedade, não pode ser considerado somente o manipulado, não pode ser visto como impossibilitado de se confrontar.
Obviamente, há exceções que se colocam, quando há efetivamente uma patologia ou distúrbio mental, onde não há subjetividade que se sustente, onde a confusão entre o ser e o existir são inevitáveis e comprovadas.

De certo, cada teoria com suas limitações pode contribuir para a nossa compreensão sobre a manifestação do crime na sociedade pós-moderna, de forma tão declarada como se os tempos de selvageria, onde o status de Lei não existia, retornasse de algum lugar. 

Psicopatia – uma reflexão psicanalítica

Comumente se relaciona a psicopatia aos comportamentos violentos com o único objetivo, que é a maldade. São chamados psicopatas aqueles que não se relacionam com empatia na sociedade, que não são afetuosos ou não possuem sentimento de culpa. A associação entre psicopatia e violência é muito frequente, o que faz com que se acredite que o psicopata se comporte como um louco assassino.

As características dirigidas aos ditos psicopatas são: egocentrismo, manipulação, impulsividade, megalomania, não estabelecimento de vínculos, sem medo de punição, necessidade de controle, intimidação.

Essas características colocam o psicopata como uma pessoa que não possui uma vida “normal” e, portanto, deve ser considerado alguém com desvio de personalidade ou de personalidade antissocial.

A psicanálise encontra na psicopatia um grande ponto de interrogação, principalmente, quando nos tentamos a inseri-la em alguma estrutura. Pelas características sempre apresentadas sobre os psicopatas, ela facilmente encontra vias na estrutura perversa.

A psicanálise nos coloca para pensar o sujeito através de conceitos como a pulsão, o inconsciente, o complexo de Édipo, bem como, pelas fantasias, pelos mecanismos de defesa e pelo superego. Dessa forma, pensar a psicopatia pela via psicanalítica é fazer referência à perversão, que se delimita a partir da passagem do sujeito pela castração.

Na Estrutura Clínica da Perversão, temos que o sujeito desmente a castração, ou seja, apesar de conhece-la, nada quer saber. A castração, que acontece na passagem do Complexo de Édipo é o momento crucial para a criança, que depende desse momento para fazer ou não relação com a lei, com o simbólico e com o mundo.

Não podemos, dentro da teoria psicanalítica, apontar o que é considerado normal ou anormal, certo ou errado, para dizer da castração ou mesmo do Complexo de Édipo. Cada Estrutura Clínica (Neurose, Perversão ou Psicose) diz de um sujeito e de um tipo de submissão à castração.

Assim, não podemos igualar a psicopatia a uma patologia mental. O psicopata não é doente, nem louco. Talvez o que diferencie o psicopata de qualquer outro perverso seja a maldade ou a malignidade de seus atos.  O perverso não psicopata segue, pelas vias da própria perversão, certos caminhos para sua satisfação, que vão de encontro com os objetos (materiais ou comportamentais) colocados no lugar da falta (para não reconhecer e não se submeter à castração).

O perverso é aquele que encontra prazer e satisfação em modalidades muito próprias, principalmente as conhecidas pelos sufixos “filias” e “ismos”: enofilia (satisfação pelo vinho), cromofilia (atração e satisfação pelas cores), que aparentemente não tem nada de sexual, tampouco é alguma infração. Por outro lado, temos também aquelas filias que determinam um ato criminoso como pedofilia, zoofilia, necrofilia. Deve-se ficar claro que a questão do delito tem seus parâmetros na lei social e não na lei simbólica. Ou como os “ismos”: sadismo, masoquismo, fetichismo. Por outro lado, o perverso pode ter como via de prazer e satisfação a relação com o poder, com o encantamento, com o dinheiro.

Sabemos que o perverso é aquele que usa o desmentido para lidar com a castração, da mesma forma, o faz para lidar com a angústia da falta (resto da castração) e com a relação com o outro, com a lei e com o mundo (objetivo da castração). O sujeito perverso não quis saber da castração, não quis saber da angústia, não quis saber da lei que coloca o outro como ordenador.

Essa forma de lidar com a castração sugere que o perverso ignora a lei social, mas não é bem assim que acontece. O perverso vive muito bem em sociedade e muitas vezes se apresenta como uma pessoa extremamente virtuosa. Quando sua via de satisfação encontra lugar na relação sexual, tratam disso de forma discreta e secreta. Quando colocam o poder, o discurso ou o dinheiro como via de satisfação, podem ser grandes líderes, palestrantes ou empreendedores.

Acontece que o perverso, por desconsiderar a lei simbólica e sua própria angústia, desconsidera também o outro, enquanto sujeito de escolhas e de sentimentos. O perverso, então usa da manipulação para alcançar seus objetivos. Sem culpa e sem escrúpulos, faz com que o outro se angustie, faz com que o outro se sinta culpado. É aqueles capaz de dar um golpe numa pessoa sem recursos e indefesa, e ainda, faz a pessoa acreditar que a culpa é dela.

Portanto, diferenciar o perverso do psicopata não é tarefa tão simples para a psicanálise, visto que não podemos creditar ao psicopata apenas os comportamentos assassinos e violentos. O psicopata age, independente do tempo ou da pessoa, com prazer na superioridade, na maldade ou na enganação, ou seja, na possibilidade de fazer ou outro sofrer. E mais uma vez, não somente pela via da agressão. Por exemplo, uma pessoa que vive dando golpes pode ser um psicopata, dependendo de sua posição de malignidade na sua atitude.

Devemos entender que nem todo assassino é psicopata e nem todo psicopata é assassino. O psicopata tem uma certa intransigência na relação com o outro e se sente mais compelido à transgredir qualquer lei. Não podemos dizer que o perverso é maldoso por si só, pois sua intenção não é maltratar, mas buscar sua satisfação. Sua manipulação, ainda que possa fazer sofrer o outro, não tem intenção de pura maldade. Já o psicopata tem satisfação na superioridade e maldade, mas não necessariamente, a maldade da agressão ou da violência. Sua maldade pode estar numa atitude inescrupulosa ou mesmo de domínio.


O psicopata acredita que está acima do bem e do mal, da vida e da morte, por isso joga com sua superioridade e sua manipulação, para assim, se sentir no controle de tudo e de todos.   

Nosso corpo, nossa morada

Nosso corpo, nossa morada. Desde as questões de saúde e beleza até as patologias, usamos nosso corpo para expressar nossos sentimentos e marcar nossa presença no mundo. Através dele mostramos quem somos e representamos papéis diversos.

Nem sempre essa relação entre nosso mundo interno e nosso corpo, é consciente e controlável. E, por isso, podemos nos perder na relação com o corpo, principalmente porque hoje vivenciamos de forma mais intensa essa relação.

O corpo é aquilo que se coloca inicialmente, que chega primeiro. Antes mesmo das pessoas poderem nos conhecer, elas interagem com nossa presença física, com nosso corpo. Obviamente, essa interação não se trata de toque, mas de olhar. O corpo é usado para servir de máscara, velando ou revelando nossas faltas.

Hoje, o corpo é um objeto a serviço dos anseios sociais e virtuais pautados numa ideologia narcísica que visa apresentar o sucesso, o bem-estar, a satisfação plena do sujeito. Lugar que não se admite a expressão do fracasso ou da tristeza.

Diariamente, nos revelamos através de nossos corpos e temos a oportunidade de desvelar outros sujeitos. Nossos movimentos, nossas roupas, acessórios, nossa fala, sorriso, tudo diz algo sobre nós, pode ser lido, revelado ou mesmo falseado. Conhecemos, reconhecemos e interpretamos as pessoas através daquilo que, primeiramente, o corpo mostra.

O tempo todo nos apresentamos e representamos, às vezes expressando nossas verdades, às vezes tentando mostrar verdades que não existem, ou mesmo sendo contraditórios em nossas expressões. De certo, o que se manifesta, através de nosso corpo, diz muito mais sobre nós do que aquilo que podemos dizer em palavras. Algumas de nossas representações são espontâneas e conscientes. Outras tantas são expressões daquilo que não sabemos dizer, nem sabemos por quê.

Usamos o corpo com cuidados em função da saúde quando procuramos alimentos saudáveis, quando usamos cosméticos que tratam ou medicações que curam e aliviam as dores. Usamos o corpo por causa da beleza quando fazemos exercícios físicos, quando utilizamos cremes e maquiagens, quando infligimos dores ao corpo para se adequar ao constructo social da valorização da imagem.

A mulher se angustia com a questão da beleza e se vê reduzida ao próprio corpo. Ainda que acredite conhecer seus limites, se escraviza, sem perceber, de um ideal muitas vezes inalcançável. Isso não significa que não possa existir prazer no trabalho corporal, onde o sofrimento é consequência satisfatória do movimento corporal, como nas bailarinas.

Mas usamos também nosso corpo para expressar aquilo que não tem palavra ou que não encontra formas melhores de se representar através de patologias. É claro que não se pode interpretar toda patologia como pura expressão de um sentido de ser, mas também não podemos negar que nossos sentimentos, nossas dúvidas e nossos conflitos influencie as questões estão atreladas ao corpo.

Não há uma ligação direta entre um estado de ser e uma impressão corporal. Não é possível afirmar que uma tristeza, uma decepção, uma frustração ou a raiva de alguém cause diretamente uma dor física ou o funcionamento errado de algum órgão ou mesmo que construa outros sentidos negativados ou destrutivos.


As mulheres têm seus corpos fragmentados pela mídia, que divide em tantos pedaços quanto forem necessários para fazer do consumo um objetivo.  A partir do discurso capitalista, ficam assujeitadas ao consumo de objetos que correspondem ao ideal de beleza e juventude ainda que em detrimento da saúde. O discurso consumistatransforma o sentido de ser das pessoas, ao mesmo tempo, que promoveo imperialismo do objeto sobre o sujeito no mundo globalizado.

Além disse, a mulher se vê diante de uma competição acirrada com os homens, na construção de sua identidade, pois precisam ser fortes, racionais, conquistadoras. Precisam assumir atitudes, antes somente referidas aos homens, para se sentirem pertencentes à sociedade contemporânea.

Porém, buscar conhecer um pouco mais nossas dores, nossos desafetos, nossos conflitos, nos permite reconhecer nosso sentido de vida e daí transformar. O corpo faz relação com o mundo. O corpo estáno espaço e no tempo e, é a própria expressão do ser-no-mundo. É na forma de ser-no-mundo através do corpo, que homens e mulheres participam da sociedade e se comunicam. O fato de pessoas terem corpos ou serem corporais permite que o mundo em que vivem seja comum a todos e também que uma pessoa tenha acesso a outra, através de suas expressões corporais.


O DELÍRIO DE AMOR COMO MOTIVAÇÃO CRIMINOSA – SOBRE A EROTOMANIA

A erotomania é conhecida como o delírio de amor, ou melhor, o delírio de ser amado. É a situação onde o sujeito constrói um delírio, acreditando que um outro realmente o ama. Geralmente, esse outro é de classe social mais elevada ou uma celebridade muito conhecida. Tal qual a mania de perseguição, a erotomania, se enquadra na clínica da paranoia, que tem a projeção seu mecanismo principal.
Na erotomania há um objeto idealizado constituído pelo sujeito internamente, que se projeta para o mundo externo e retorna desse lugar. Esse mecanismo, de projeção, acentuado na paranoia é o que sustenta a construção delirante e a crença inabalável daquilo que é projetado.
A apreensão da realidade acontece pela projeção, portanto não há a mesma percepção como de outras pessoas. O sujeito não percebe seu delírio. E, pelo contrário, pode buscar artifícios, cognitivos e discursivos, para comprovar, aos que duvidam de sua realidade, que aquilo que delira é na verdade um fato.
Na sua construção delirante, o erotômano acredita que a outra pessoa corresponde ao seu sentimento de amor, muitas vezes até acreditando que o outro o ama demais (o persegue). Acredita que gestos, frases e comportamentos são declarações de amor.
O termo, erotomania, foi cunhado por Clérambault, que nos apresenta três fases em seu desenvolvimento. A primeira, é do orgulho, quando o sujeito tem convicção de que está sendo amado. A segunda, é do despeito, quando o sujeito mistura sentimento de um ‘orgulho ferido’ com a possibilidade de conciliação e a vontade de vingança. E a terceira fase, é a de reinvindicação, quando o sujeito passa a ter ódio do objeto de seu delírio.
O sujeito que mata na erotomania, é o sujeito que chegou na fase de ódio do objeto. Quando ele acredita que o objeto idealizado o destruiu, acabou com sua vida. Neste momento, a única saída para ele é a eliminação do objeto – e consequentemente a sua. Ele não consegue deslocar para outro objeto e acredita que precisa exterminar a pessoa encarnada como objeto delirante
A erotomania é diferente da paixão platônica, pois essa última não apresenta delírio. Aquele que sofre de paixão platônica consegue perceber suas fantasias diante de um outro que não corresponde, ainda que com muito ou depois de muito sofrimento. Nisso, conforme sua fantasia é desconstruída, ele tem a possibilidade de deslocar seu amor.
O erotômano está sempre na certeza, na crença inabalável. Ele não se questiona. Ele não tem dúvida. Quando surge uma pequena percepção de não correspondência do outro, o que muda é seu delírio, de “ele me ama” para “ele me enganou”, “ele me destruiu”. A diferença está que o neurótico (da paixão platônica) usa a fantasia para lidar com certas durezas da realidade, enquanto que, para o paranoico, sua fantasia é a própria realidade – delírio.
O mundo hoje, da virtualidade, aproxima fantasias e realidades – para neuróticos e psicóticos. Pelo virtual podemos parecer o que não somos, podemos nos aproximar de quem não está perto e ter amizade com quem não conhecemos. Assim, facilmente, podemos confundir e fundir o real e o virtual. Pela virtualidade, fugimos de uma realidade sofrida e construímos um mundo onde tudo é possível.
O mundo virtual é um terreno fértil para construção de fantasias delirantes, tanto no sentido de ser perseguido, como no sentido de ser amado. Algumas poucas palavras de uma pessoa, já idealizada como objeto de amor ou ódio, pode alimentar um delírio e fazê-lo ser conduzido a uma ação.
De certo, a paranoia – da erotomania ou da perseguição – não surge do nada. O sujeito sempre dá indícios de sua construção subjetiva. Na maioria das vezes, o sujeito é considerado esquisito, ou uma pessoa que implica com detalhes, ou aquele que não sabe brincar, ou como um cara que imagina demais, ou como um mentiroso que acredita nas próprias mentiras, ou aquele que fica divagando.
Não estamos acostumados a prestar atenção nas pessoas. Nem a perceber os rastros emocionais, comportamentais e de pensamentos que as pessoas deixam. Menos ainda preparados para lidar com situações limítrofes. Por outro lado, também não podemos considerar qualquer fantasia um aviso de destruição do ser ou de outros. Mas sabemos que nossa sociedade, com a supervalorização do individualismo e da virtualidade, nos ajuda nessa cegueira com relação aos outros, nos ajuda a não nos aproximarmos demais e a não querer saber do outro.
A erotomania é a expressão subjetiva de um sujeito. É a forma que ele encontra de lidar com suas fantasias e seus conflitos. E não é, simplesmente, uma característica de desmantelamento ou aniquilamento do sujeito. Ou seja, não necessariamente, esse paranoico destruirá seu objeto do delírio ou a si mesmo e se tornará um criminoso.

As subjetividades estão por aí. Consideradas “normais” ou não, elas são a expressão do sujeito em sociedade. A forma como lida com aquilo que é seu. Mas não são, em si só, a justificativa do comportamento criminoso.

Gestão de Pessoas na pós-modernidade

São inúmeros os problemas que afetam as organizações atualmente, mas um deles é, ao mesmo tempo, tão antigo quanto atual, que interfere em toda dinâmica da empresa, e é traduzido pela expressão ‘lidar com pessoas’. Contudo, cada tempo e cada sociedade tem sujeitos próprios que devem ser tratados de forma própria. Isto nos convida a refletir sobre duas questões: quem são os sujeitos atuais e como lidar com estes sujeitos.

Bauman, sociólogo polonês, radicado na Inglaterra, nos traz um novo conceito sobre o sujeito atual, que nos possibilita apreender quem é este ser de que tanto se fala e se estuda hoje. O sujeito líquido, advento da sociedade líquida é o termo cunhado pelo estudioso para designar este homem pós-moderno que está em constante transformação e que não tem uma forma (ou posição) fixa e delimitada. Seus estudam apontam as angústias humanas decorrentes da busca incessante pela perfeição, pelos objetos e pela felicidade.

Com o sujeito líquido, percebemos que os vínculos são fluidos e, portanto, frágeis. O sujeito líquido não cria relações estáveis, nem no âmbito particular, nem no profissional. As relações amorosas, por exemplo, não se constituem na solidez e são facilmente dissolvidas. Assim como, as relações de trabalho, que, aparentemente, não possuem valores tais que forcem o sujeito a considerar algum tipo de estabilidade. 

Antigamente, as escolhas, os comportamentos, os conceitos eram bem mais definidos e menos flexíveis. Hoje, com o advento da tecnologia e da comunicação, que avassalam na pós-modernidade, todos os conceitos, comportamentos etc são mais instáveis, volúveis, ou seja, a transformação é constante. Algo que é hoje, amanhã pode já não ser.

A nova forma de conceber o mundo é fruto da globalização que instaura o ilimitado, o mundo sem fronteiras. O acesso à informação, à comunicação e ao consumo são marcas registradas neste novo tempo.

A pós-modernidade nos traz a complexidade de um sujeito em contínua transformação, ao mesmo tempo que nos permite a facilitação dos acessos pela divulgação constante da norma do ‘tudo é possível’. O excesso de consumo traz uma certa ilusão de onipotência e premia o sujeito com uma depressão essencial, que indica a insuportável existência na impossibilidade do consumir.

No mundo atual os objetos são oferecidos de forma variada e em abundância, que ultrapassam as barreiras da demanda. A estratégia é constituir demandas, oferecendo objetos que passam a ser necessários quando aparecem.

Ao mesmo tempo, que os objetos são variados, as identidades também são diversificadas. Se, antigamente, tínhamos referenciais fixos de um ‘querer ser’, tal como o pai, a mãe, um tio, um médico, hoje somos interpelados por muitos estilos possíveis de ser. Neste contexto, os sujeitos atuais sofrem com a necessidade de definir uma escolha, o que acaba gerando muita angústia e dificuldade de amadurecimento, que ocorre em momento tardio.

O sujeito é fluído, pode estar aqui e lá ao mesmo tempo, pode “conhecer o mundo sem sair de casa”, mistura produções culturais e modos de vida. É um sujeito que parece ter identidades líquidas, ou identidades com todos os grupos, que na realidade não pertence totalmente a nenhum. A crise de identidade não está no conflito com outras identidades diferentes, não está nas dificuldades em aceitar o diferente. Está na não constituição de um si mesmo integrado.

Ora, se o sujeito não é estável e seu movimento é sempre em busca de alguma coisa, de forma rápida, pois este sujeito é impulsivo, como querer tratá-lo da mesma forma como se fez com as gerações anteriores? Como acreditar que os mesmos caminhos servirão para fazê-lo ‘vestir a camisa’ da empresa?

O que move o sujeito é seu desejo, que para além de uma vontade conhecida, é algo que se insere pelo pulsar, que desassossega e que deve ser o ponto a ser tocado para transformar sua posição na vida pessoal e profissional.


Portanto, o tema ‘gestão de pessoas” não pode deixar de considerar o estudo social e cultural destes novos tempos. Não é possível submeter o mesmo olhar a estes novos sujeitos que surgem na atualidade. Estamos em tempo de aprender sobre este novo “modus operandis” de ser, contudo, já é possível olhar e agir de outras formas a partir do entendimento do sujeito ilimitado. Não para tentar restaurar a um modo anterior, mas sim, para poder encontrar o melhor caminho de relações e de trabalho. 

Finanças no divã – a Psicanálise do dinheiro

Depois que o prêmio Nobel de Economia foi dado a um estudioso que relaciona finanças com processos psicológicos, as pessoas começaram a prestar mais atenção no ser humano do que nos números quando o assunto é dinheiro. Entender o ser humano e o porquê de suas atitudes financeiras se tornou o objeto de desejo das pessoas que trabalham com finanças e investimentos. Mas isto não é tarefa fácil, pois não é possível saber do sujeito, simplesmente, através de testes racionais. Não é possível querer olhar o sujeito como um objeto de apreensão total, como se fosse um robô altamente manipulável e que responde a comandos por simples ato de vontade.

Há fatores que influenciam o comportamento financeiro que estão além da racionalidade. Para a psicanálise, algo do desejo inconsciente se revela na relação com o dinheiro, bem como atua na sua constituição subjetiva. Sem saber, a pessoa se enlaça em problemas financeiros que estão mais ligados a conflitos internos e à questão de “quem sou eu” do que por falta de fazer contas ou analisar gastos e investimentos. A realização do consumo satisfaz um modo de ser – ser alguém pela soma de objetos ou pela posição idealizada. Por outro lado, podemos entender, em algumas pessoas, que a necessidade de endividamento está ligada à uma dívida inconsciente, no sentido de “devo ao Outro”, onde este Outro está para além da personificação, pois só existe na relação do sujeito com ele mesmo.

A maneira como o brasileiro lida com o dinheiro diz muito sobre a forma como olha para si mesmo e como se relaciona com o mundo. Os problemas relacionados ao dinheiro são, atualmente, questões trazidas para o divã como fundadores de outros conflitos e desordens. Quando há imaturidade em lidar com perdas financeiras ou com problemas de administração de dinheiro, o sujeito se sente impotente diante de si mesmo e nas relações com o outros. Questões como conflitos de relacionamento, patologias emocionais e até problemas sexuais podem ter suas origens nas finanças, ou mesmo levar a pessoa a dificuldades de lidar com o dinheiro.

Portanto, àqueles que estudam e trabalham com finanças deverá restar o desejo de saber mais sobre quem é o sujeito que está diante de si. Aquele que continuar focando seu trabalho nos números e não se importar com os aspectos emocionais e psicológicos de clientes, funcionários e outros, não sobreviverá num mercado onde saber lidar com aspectos mais humanos e profundos são emergentes.
Contudo, sabemos que não há mágica e cada profissional, no seu campo de atuação deverá buscar o máximo de conhecimento para satisfazer à demanda de “entender o outro como a si mesmo”.

“OS BRUTOS TAMBÉM AMAM” Empresários e executivos como sujeitos de desejos e limitações

As exigências do mundo moderno fazem com que homens e mulheres se obriguem constantemente à superação de desafios e obstáculos. E ainda que, se reconheçam como seres humanos comuns, suas superações visam a total eficiência, intimando-os a se posicionarem como super-homens ou super-mulheres.

Esta demanda social é fortíssima para qualquer pessoa, mas quando falamos sobre empresários, executivos ou outras pessoas que assumem posição de comando, a superação se amplia, pois o olhar não é individual, se volta para as questões da empresa, dos negócios e dos colaboradores.

Os empresários e executivos sabem do valor dado ao lado emocional e psicológico de seus colaboradores e como os conflitos que envolvem problemas de comportamento e relacionamento são devastadores para as empresas. São eles que vão gerenciar o funcionamento das atividades empresariais e o funcionamento das relações de seus  colaboradores.

A busca desses homens e mulheres de negócios é por melhores condições de trabalho para aqueles que dependem da empresa, incluindo recursos financeiros e benefícios, pois percebem esta necessidade e visam o desenvolvimento das atividades de forma mais assertiva e satisfatória.

Hoje, tanto nas seleções como nos treinamentos, os aspectos emocionais e psicológicos são avaliados e analisados como condições fundamentais para a manutenção do emprego. Relacionamento interpessoal, inteligência emocional, negociação de conflitos são temas recorrentes nos movimentos dos recursos humanos.

Esta carga de ações e pensamentos exigida do empresário/ executivo, tanto para os resultados dos objetivos da empresa, como para o planejamento e forma de execução, sem nunca esquecer de que lidam com pessoas, que também carregam objetivos, comportamentos, pensamentos e conflitos, ao mesmo tempo que movimenta este empresário/ executivo para o desenvolvimento de seu trabalho, também o afasta de si mesmo e de seus conflitos internos.

Queremos pensar e dar atenção, então, para este sujeito (empresário/ executivo), que assume várias posições dentro da empresa: de comando, liderança, chefia, administração, gerência, mas também se preocupa com a negociação de conflitos, supervisão da qualidade e apresentação de resultados, acumulando uma série de exigências, que quando voltadas para as soluções do trabalho, soluções externas ou dos colaboradores, consegue dar conta, mas, em geral, não voltam seus olhares para suas questões individuais.

Este homem ou mulher de negócios é também um ser de emoções, de alma, que adota os problemas da empresa, dos negócios, dos colaboradores, mas que não sabe lidar com os próprios conflitos. Muitas vezes, é envolvido por questões pessoais que não reconhece como dificuldade ou problema e acaba não podendo resolver. Sem perceber, descontam em pessoas ou objetos, que diretamente não fizeram nada para eles, como cônjuges, filhos, colegas, colaboradores, cachorros, trânsito.

As questões mais íntimas, esses fantasmas ou demônios, surgem para qualquer sujeito e todos sentem certa dificuldade em assumir que seus conflitos existem. Porém, o empresário/ executivo, por ser a pessoa que sempre tem uma carta na manga para solucionar problemas, pois ele é o centro das resoluções, tem mais dificuldade de se perceber numa situação de não saber o que fazer, principalmente, quando este não saber se pontua no si mesmo, nos seus pensamentos e sentimentos.

O sujeito de negócios é visto como o equilíbrio da empresa, o ser da segurança, posto num cargo de grande exigência, não só sobre as questões intelectuais, mas também sobre as questões comportamentais dos colaboradores, contudo não se dá conta de que é um sujeito comum, que sente, pensa, necessita, ama, espera.

O empresário não se permite ter dúvidas; não se permite sentir; não se permite não saber o que fazer consigo e com o que pensa e sente. Não se permite desconhecer. Sofre, e sofre calado, mais do que qualquer outro colaborador, pois sofre sem pedir ajuda, sem poder demonstrar que ali há um ser humano que tem emoções e que também fraqueja.

Por ser considerado e exigido nesta posição, e por ele assumir esta posição, não se permite pequenos pontos de interrogação, como se tivesse em constante resistência. Resiste não como forma de se acreditar melhor do ninguém, não como uma forma de ser arrogante, mas resiste como necessidade, porque se sua posição for abalada, não é só a ele, como sujeito, que a desestruturação acontece.

Carrega as dores, as emoções, os conflitos também daqueles que o rodeiam e mesmo que tente se afastar, a todo momento é chamado a prestar esta atenção, pois é ele que tem que resolver quando há necessidade de um novo treinamento, de uma nova abordagem, de nova solução para aqueles conflitos que estão aparecendo.

Entrar em contato consigo mesmo, com suas emoções, pensamentos, limitações e com seus desejos mais íntimos é uma dificuldade que passa qualquer pessoa. Nós não aprendemos a nos enxergar como sujeitos para além daquilo que é racional. Essa dificuldade é maior para o empresário porque dele é exigido demais, racionalmente. Olhar para si ou cuidar de si não cruzam com as ações desses homens e mulheres de negócios.

É comum estas pessoas, sem perceber, levarem suas questões pessoais para a empresa e vice-versa, quando, por exemplo, se irritam com mais facilidade; quando têm dificuldade para resolver algumas questões, onde o que antes era fácil começou a pesar ou complicar; quando percebem que o que era prazeroso se torna um transtorno, se torna um desafio grande demais; quando não conseguem motivação, nem para si, nem para seus colaboradores.

Não têm a consciência de seus conflitos e fantasmas, mas percebem quando alguns sintomas ficam visíveis, por exemplo, não tendo paciência, se tornando intolerantes, onde as outras pessoas sentem receio em dialogar. Eles se afligem e não sabem como agir, não sabem o que fazer com que está acontecendo com eles e com as coisas a sua volta. Agem de forma constante, rotineira, mecânica, sem parar para pensar ou se questionar sobre o que realmente estão fazendo; sobre se há benefícios ou não naquilo que fazem; sobre o que sentem em relação ao que fazem; aliás, sobre o que, realmente,  sentem. Mesmo porque, quando fazem esta reflexão sofrem, não têm respostas e se sentem num vazio. Apresentam nervosismo, inquietação, indisponibilidade, indisposição, falta de sentido, necessidade de carinho, falta de vontade, constante obrigação a si mesmo, cobrança em fazer, resolver, empreender.

As pessoas que precisam revolver coisas demais, não percebem e não diferem o que são questões próprias e o que são questões externas, pois comumente anulam ou deixam de lado suas aflições, dúvidas e vontades. Conflitos estes, que não são considerados importantes, relevantes ou são impróprios para se pensar no momento, surgem em forma de impaciência, irritação, desatenção, esquecimento, e levam o sujeito a apresentar comportamentos negativos sem perceber. O cuidado de si é sempre posto adiante.

Cria-se uma expectativa em torno desses empresários e executivos, numa relação de dependência, mas assumida somente como a dependência dos outros em relação a eles, de suas ações, de seus planejamentos e de suas soluções. A responsabilidade é carregada com excessos de pressão e permeada pela culpa e possibilidade de erro. O peso é da preocupação, como se a qualquer momento tivesse que tomar uma decisão, que só cabe a ele fazer, que depende somente dele.  Não é só uma pressão demasiada, mas um sentimento de extração, como se fosse, constantemente, sugado. 

Alguns sintomas como medos, angústias, palpitações, dores de cabeça, sudoreses, dor de estômago, ansiedade, nomeados estresse, podem sugerir muito mais que a pressão constante do trabalho ou o esgotamento mental e físico, ainda que estes, também, sejam sinais de necessidade de parada; um pedido do corpo e da alma de um pouco de atenção e cuidado.

Destaco a importância desse olhar-se e sentir-se. Reconhecer-se como um sujeito comum, que também faz interrogações sobre si mesmo. E mais ainda, saber e compreender que quanto mais é assumida e exigida esta posição de administrador, líder, pensador e solucionador, mais deverá ser o cuidado de si, pois o sujeito não é máquina.