Paixão, palavra que nos remete aos extremos do ser, seja pelo amor ou pelo ódio, seja pelo bom ou pelo mau. A paixão é uma forma de fixação, onde a pessoa idealiza um objeto (pessoa, idéia ou comportamento) e o coloca no lugar do ideal de ego (que, de forma simplificada, significa a forma como o sujeito é ou quer ser).
A paixão, em sua essência, pode causar alienação do sujeito, que abandona o si mesmo, causando enfraquecimento do eu e supervalorizando o objeto que se torna uma necessidade. Uma pessoa apaixonada não se sente mais forte, mais bonita ou mais querida por si mesmo, ela precisa do olhar do outro amado. Ela precisa que este outro lhe diga sobre seu bem-estar.
Apesar de, num primeiro momento, trazer vivacidade ao apaixonado, a paixão se insere pela via da fixação, que promove ao sujeito um prazer indizível, pois nem ele sabe sobre o prazer que lhe causa, tampouco, como isto aconteceu. Por permanecer na fixação, a paixão não é um sentimento sublime, não se configura no lado positivo da vida e não celebra o amor.
Se tomarmos a paixão como abandono do eu em direção ao objeto, temos, então, uma pessoa ‘não inteira', que por isso, se afasta da realidade e desconsidera os outros objetos do mundo e as outras relações. A paixão está no fanatismo, nas patologias, nos movimentos violentos, na figura dos egoístas.
A pessoa apaixonada, por vezes, perde o senso crítico da realidade e a capacidade de avaliar o certo e errado, o bem e o mal. Em encontros com sua imaginação, beirando o delírio, o apaixonado justifica seus comportamentos e pensamentos, tal qual, justifica os do objeto amado, considerando sempre o sentido de apreensão do objeto, ou seja, a tomado do outro para si.
O movimento egoísta é percebido na fala do apaixonado: "eu te adoro, eu te quero"; "você é a coisa mais importante para mim"; "não posso viver sem você"; "quero você só para mim"; "você é minha". Frases, que conforme revela o estado da paixão, desconsidera o desejo do outro.
Na contradição entre o egoísmo e a proteção, muitas pessoas acreditam no bem supremo do apaixonado e, por vezes, é neste momento que não percebem quando há algo patológico. Alvos de crimes, ditos passionais, quando percebem, já é tarde.
Para que não seja patológico (ou não se torne), é necessário que o sujeito não se abandone e não se direcione para este sentimento de forma totalitária. Há que existir uma alternância entre o estado de paixão e a capacidade de razão.
A paixão é benéfica quando o sujeito não se destitui de si mesmo e não se afasta da realidade. Quando consegue equilibrar as explosões do estado apaixonado com a relação com o mundo externo e interno. Podendo, neste equilíbrio, adquirir potencial para um bem querer maior, que não anula totalmente as inseguranças próprias do ser, mas que se insere com maior maturidade.
O crime passional é caracterizado pela relação de paixão entre o criminoso e a vítima, independente do tempo de relação ou mesmo da realidade objetiva desta relação – em alguns casos esta "relação de amor" somente existe no delírio do criminoso, como acontece na paranóia.
Ainda que, o criminoso se encha de motivos éticos, morais, financeiros para justificar seu ato, não é possível desrresponsabilizá-lo ou desculpá-lo. Estes motivos explicam processos internos, mas não encobrem o ódio, a possessividade, o poder, a intolerância, a vingança que o criminoso carrega pela vítima.
Estes criminosos são, na sua maioria, homens que não suportaram a frustração da traição ou da troca. E precisam demonstrar a subjugação da mulher e a constatação de sua honra. Isto é facilmente entendido pela cultura, pois as mulheres são, em geral, mais compreensivas, mais sensíveis e mais acolhedoras, podendo aceitar com mais tranqüilidade as atitudes do homem, como, por exemplo, nos deslizes de traição.
Por outro lado, grande parte dos homens tem mais características de atuação do que de reflexão. A masculinidade ainda é entendida e demonstrada pelo poder, pela dominação, pelo controle, pela atuação sexual, pela agressividade. A exemplo disto, temos muitos homens que quando perdem o emprego, a posição social ou o controle de suas finanças, desenvolvem distúrbios sexuais, como a impotência. O homem não aprendeu a lidar com os sentimentos e as emoções, por isso quando há angústia, há incapacidade.
Entendendo a paixão como tomada do objeto enquanto ideal de ego, no crime passional, este objeto (figurado na pessoa) é o causador da dor, porém de uma dor objetiva. A eliminação do objeto cessa com o sofrimento.
O criminoso passional não sabe lidar com seus sentimentos de dor, nem de amor. Não consegue utilizar seu simbólico para resolver seu sofrimento. Quando diz: "é uma faca em meu peito", é como se a faca realmente estivesse lá, portanto para desaparecer com a dor é preciso remover a faca, eliminá-la.
Esta é a impossibilidade do sujeito colocar em palavras (a linguagem é simbólica) o que toma conta de seu corpo e seu pensamento. A angústia que se instaura na rachadura do ser, é onde a palavra não dá conta e o não dito surge em forma de ato.
A psicanálise trabalha com a fala, permitindo ao sujeito que transforme em palavra aquilo que sente, mas que ainda está no impossível de dizer. Pela palavra, oferecemos o simbólico como via de expressão, e mais, como possibilidade de dizer da sua angústia sem querer eliminá-la pelo ato, como faz o criminoso passional, que na apreensão do objeto real, submete-o ao lugar da angústia e mata como se matasse a própria angústia.
Elizandra Souza
Psicanalista
Diretora da Comissão de Ética do SINPESP
www.elizandrasouza.com.br
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segunda-feira, 19 de julho de 2010
REFLEXÕES SOBRE O CRIME PASSIONAL
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
Bulling – relações em perigo
Quando se fala em bulling, a primeira idéia que nos vem à mente é a agressividade, porém quando ampliamos nosso pensamento sobre este assunto vemos que por trás desta agressividade existe um número muito grande de outros sentimentos e emoções, que nem sempre é apreendido pelo discurso daquele que justifica seu ato.
Ressaltamos a influência da educação nestes casos, principalmente, na forma hoje, que se apresentam os comportamentos de crianças e adolescentes. Em todo o mundo, as taxas de prevalência de bullying, revelam que entre 5% a 35% dos alunos estão envolvidos no fenômeno. Porém, o bulling não está ligado somente às atitudes juvenis. Este comportamento hostil também acontece com adultos, muitas vezes como forma de defesa ou proteção.
O sujeito se comporta contrariamente ao que inconscientemente reconhece em si. As atitudes agressivas e hostis com relação aos colegas aparece como tentativa de mascarar seu próprio sentimento de inferioridade. Como animais acuados que atacam, ao invés de se renderem, os sujeitos considerados bullies não encontram outras formas de se posicionarem na vida, diante de pessoas ou situações, senão pela violência. Ele tem necessidade de dominar, de subjugar e de impor sua autoridade sobre outrem, mediante coação; necessidade de aceitação e de pertencimento a um grupo; de auto-afirmação, de chamar a atenção para si. Possui ainda, a inabilidade de expressar seus sentimentos mais íntimos, de se colocar no lugar do outro e de perceber suas dores e sentimentos.
Esta violência assume o caráter etiológico do violar, como se, realmente, apoderasse de algo do outro para assumir como seu. O bullie viola não só as leis, a moral e a disciplina, mas principalmente, viola o sujeito naquilo que ele mais tenta conservar que é o ‘direito’. Direito à integridade física e psíquica. Direito à fala e ao movimento. Direito à opinião, à criação de hipóteses e à discordância.
Por outro lado, sob o arcabouço de seu modo agressivo, existe um ser que sofre. E não sabe nada sobre seu sofrimento, pois ele não comparece após um ato violento. Seu sofrimento é anterior e seus comportamentos agem como um véu, que escondem, abafam e tentam anular sua dor.
Em psicanálise, quando falamos desta dor ou deste sofrimento, não falamos de algo consciente, tampouco que seja algo motivo de pena. Não é algo se pode justificar os atos agressivos, mas sim, aquilo que indica a sujeição, aquilo que diz do sujeito sem ele saber.
Estudar as causas de bulling incluem diversas matérias ou ramos do saber. As perspectivas sociais, educacionais, políticas, econômicas e subjetivas devem ser trabalhadas de forma interdisciplinar para tratar este comportamento, que não é recente, mas é atualmente muito freqüente.
A psicanálise traz mais um ponto de vista. Um novo olhar que atua naquilo que não é dito no discurso do sujeito, mas é produzido por este discurso. Mais do que escutar aquele que sofre o bulling, é preciso escutar o próprio agressor, para quem sabe, possamos entender a dinâmica deste processo de subjetivação.
Lacan, que frisa a idéia da responsabilidade do sujeito: “A verdade que a psicanálise pode conduzir o criminoso não pode ser desvinculada da base da experiência que a constitui, e essa base é a mesma que define o caráter sagrado da ação médica – ou seja, o respeito pelo sofrimento do homem.” (Escritos)
Elizandra Souza
Psicanalista
Comissão de Ética do SINPESP
www.elizandrasouza.com.br
Ressaltamos a influência da educação nestes casos, principalmente, na forma hoje, que se apresentam os comportamentos de crianças e adolescentes. Em todo o mundo, as taxas de prevalência de bullying, revelam que entre 5% a 35% dos alunos estão envolvidos no fenômeno. Porém, o bulling não está ligado somente às atitudes juvenis. Este comportamento hostil também acontece com adultos, muitas vezes como forma de defesa ou proteção.
O sujeito se comporta contrariamente ao que inconscientemente reconhece em si. As atitudes agressivas e hostis com relação aos colegas aparece como tentativa de mascarar seu próprio sentimento de inferioridade. Como animais acuados que atacam, ao invés de se renderem, os sujeitos considerados bullies não encontram outras formas de se posicionarem na vida, diante de pessoas ou situações, senão pela violência. Ele tem necessidade de dominar, de subjugar e de impor sua autoridade sobre outrem, mediante coação; necessidade de aceitação e de pertencimento a um grupo; de auto-afirmação, de chamar a atenção para si. Possui ainda, a inabilidade de expressar seus sentimentos mais íntimos, de se colocar no lugar do outro e de perceber suas dores e sentimentos.
Esta violência assume o caráter etiológico do violar, como se, realmente, apoderasse de algo do outro para assumir como seu. O bullie viola não só as leis, a moral e a disciplina, mas principalmente, viola o sujeito naquilo que ele mais tenta conservar que é o ‘direito’. Direito à integridade física e psíquica. Direito à fala e ao movimento. Direito à opinião, à criação de hipóteses e à discordância.
Por outro lado, sob o arcabouço de seu modo agressivo, existe um ser que sofre. E não sabe nada sobre seu sofrimento, pois ele não comparece após um ato violento. Seu sofrimento é anterior e seus comportamentos agem como um véu, que escondem, abafam e tentam anular sua dor.
Em psicanálise, quando falamos desta dor ou deste sofrimento, não falamos de algo consciente, tampouco que seja algo motivo de pena. Não é algo se pode justificar os atos agressivos, mas sim, aquilo que indica a sujeição, aquilo que diz do sujeito sem ele saber.
Estudar as causas de bulling incluem diversas matérias ou ramos do saber. As perspectivas sociais, educacionais, políticas, econômicas e subjetivas devem ser trabalhadas de forma interdisciplinar para tratar este comportamento, que não é recente, mas é atualmente muito freqüente.
A psicanálise traz mais um ponto de vista. Um novo olhar que atua naquilo que não é dito no discurso do sujeito, mas é produzido por este discurso. Mais do que escutar aquele que sofre o bulling, é preciso escutar o próprio agressor, para quem sabe, possamos entender a dinâmica deste processo de subjetivação.
Lacan, que frisa a idéia da responsabilidade do sujeito: “A verdade que a psicanálise pode conduzir o criminoso não pode ser desvinculada da base da experiência que a constitui, e essa base é a mesma que define o caráter sagrado da ação médica – ou seja, o respeito pelo sofrimento do homem.” (Escritos)
Elizandra Souza
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