ELIZANDRA SOUZA

segunda-feira, 16 de julho de 2012

LIVRO

APROXIMANDO-SE DA PSICANÁLISE NUM JOGO DE PERGUNTAS E RESPOSTAS








Um livro com as perguntas que todos gostariam de fazer para os especialistas, mas nem sempre têm esta oportunidade. Neste livro estão reunidas perguntas feitas em programas de tv, rádio, revistas e jornais, com respostas simples e de fácil entendimento. Tire suas dúvidas sobre criação dos filhos, relacionamento, doenças modernas etc.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Loucura ou maldade – a barbaridade é executada por pessoas comuns


Mais uma vez, a sociedade se vê diante de um caso escabroso de assassinato, onde uma pessoa comum, que possui atividades comuns é declaradamente uma assassina fria, que tenta se livrar do resultado de sua ação através de outras ações mais incompreensíveis. Apesar de, o ato ser considerado "fora da normalidade", isto não significa que o criminoso seja incapaz de responder por ele.
O ato de cometer crimes bárbaros, tão comumente nomeados de loucura, não indica, por si só, uma patologia de ordem psíquica, emocional ou mental, que incapacite o sujeito. Mesmo sendo, incomensurável, incompreensível e inadmissível, não significa que o sujeito comum não possa se valer de atitudes criminosas para resolver seus conflitos.
Ainda que não consigamos entender a complexidade dos atos criminosos e violentos, aceitar a simples justificativa patológica do distúrbio mental ou psicológico já não é possível, pois cada vez mais, nos são revelados casos escabrosos realizados por sujeitos comuns. Sim, eles têm vida ‘normal'! Trabalham, estudam, casam-se, têm filhos, e mesmo assim, podem cometer crimes altamente perversos e bárbaros.
Nossa falta de compreensão do ser é tão grande que não conseguimos suportar o fato de qualquer outro humano poder ser tão mal a ponto de matar, esquartejar ou violentar um semelhante, por motivos comuns como ciúme, inveja, descrença,  obstáculo etc.
O grande problema quando tentamos entender estes atos está na palavra "semelhança". Somos constituídos por identificações; nos reconhecemos através do outro; precisamos que o outro nos diga quem somos; existimos a partir da fala do nosso semelhante e por tudo isso, não conseguimos assimilar a ideia que um outro semelhante a mim possa ter atitudes tão destrutivas, conceitos tão distorcidos ou soluções tão macabras.
Contudo, é também, para aqueles que buscam explicações para esta impossibilidade de compreensão que a patologia encontra seu mérito.  É mais fácil tentar encobrir nosso total desconhecimento da essência humana pelo véu da patologia, principalmente, da loucura. Quando acontecem crimes bárbaros ou sem explicação racional convincente, tratamos logo de inserir o comportamento do criminoso em qualquer forma patológica. Onde não há explicação, dizemos que é ‘doença'. 
Não é só o criminoso que tenta se valer de condutas médico-psiquiatras para justificar seu comportamento – e assim, de certa forma, atenuar sua ação, pois através da justificativa patológica, há diminuição da responsabilidade. Os especialistas também lançam mão desta possibilidade para dar conta daquilo que não conseguem dizer.  O louco não pode responder por seus atos! Há crimes tão repulsivos que somente acreditando que o autor não é uma pessoa "comum" ou "normal", que conseguimos dar alguma continuidade em nosso pensamento.
O crime bárbaro realizado por uma pessoa comum trava nosso entendimento sobre nós mesmos e sobre os outros, paralisa nosso pensamento. Ele nos coloca diante do horror de ser humano, nos coloca diante da pulsão primitiva, a sobrevivência atrelada ao desejo. A aniquilação do outro é concreta. Como no crime passional, o objeto de sofrimento deve  desaparecer, sumir, deixar de existir. Assim, acontece em diversos outros crimes, mas não necessariamente este objeto a desaparecer é um objeto de dor de paixão, hoje vemos que este objeto é um outro que possui o que o criminoso não tem; que faz o que o criminoso não gosta; que fala o que o criminoso não quer ouvir ou mesmo que seja visto como um obstáculo para o bem-viver do criminoso.
Porém, ainda temos o problema da semelhança. Como eu ou você, qualquer um está a mercê de cometer uma loucura (e isto não significa que seja louco). Mas, como inserir todos os sujeitos na mesma cesta? Como eu ou você, pessoas comuns, podemos aceitar que somos tais e quais aqueles que cometem crimes brutais?  O impasse está lançado!
As justificativas são tão banais quanto perturbadoras. Então, apaziguamos nosso conflito interno e eterno desta incompreensão através de uma palavra, a loucura, que se estende como forma de explicação psicológica e social para o incompreensível. Ou seja, se o outro é louco, então não é meu semelhante, a insanidade serve como divisor entre os  "normais" e os "anormais". 
Contudo, a loucura é, também, irresponsável. Na medida em que acreditamos que o sujeito criminoso é insano, o colocamos no patamar da falta de responsabilidade, ou seja, ele não sabe o que faz. Agir por emoção, ter problemas psicológicos, ter sofrido traumas, sofrer de depressão são algumas das justificadas que desconsideram a responsabilidade do sujeito pelo seu ato, como se estes fossem "alvarás" concedidos para qualquer ação despropositada, irracional ou criminosa.
E é esta a questão que deve ser colocada em pauta na eminência destes atos: a responsabilidade. Não podemos mais nos submeter a justificativas frágeis sobre o sujeito criminoso que, simplesmente, tutelam os crimes e ignoram sua responsabilidade.  Independente de suas explicações ou justificativas que fazem sentido somente para aquele que age, a responsabilidade deve ser considerada.   


Elizandra Souza
Psicanalista, escreveu o livro "Aproximando-se da Psicanálise num jogo de perguntas e respostas".
Diretora da Comissão de Ética do SINPESP
 www.elizandrasouza.com.br

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bicicletas X Carros - Mais uma vez aceitamos o desvio de nossos olhares!

O movimento de apoio ao uso das bicicletas na cidade de São Paulo é mais uma forma de desvio da responsabilidade pública em oferecer um transporte público decente. Como uma cidade com tantos veículos se torna refém das bicicletas?

O uso dos carros nas grandes cidades há anos não pode ser considerado um luxo ou uma forma de status social. O carro é hoje, muitas vezes, o único meio de transporte viável para os cidadãos. É claro que aquele que pode se locomover com o carro não vai escolher andar como "sardinha enlatada" nos transportes oferecidos pelo governo. Além da péssima conservação, ainda são transportes extremamente demorados e caros, que não viabilizam a locomoção pela cidade. Muitas vezes, para ir de um bairro a outro é necessário o uso de duas conduções, enquanto que com carro se leva 15 minutos.

Sim, é mais tranquilo andar de carro, mas não é fácil, tampouco barato. O combustível é caro, o imposto é absurdo e ainda temos a inspeção veicular - que é melhor nem comentar! Contudo, utilizar os ônibus é bem pior.

Para desviar nossa atenção desta condição precária do transporte público, o governo, através dos movimentos alienantes, toma seu lugarzinho neste "bonde" e apoia qualquer coisa que o desobrigue de sua responsabilidade. Porém, sendo a bicicleta uma solução, coloquemos os milhares de usuários de ônibus e metrô, que se excedem nas estações, em bicicletas pela cidade.

É claro que os acidentes aumentaram. Mas não é, simplesmente, pelo desrespeito generalizado, e sim pelo maior número de exposição. Quanto mais carros nas ruas, mais acidentes automobilísticos.

Quanto mais motos, mais acidentes com motociclistas. Quanto mais bicicletas, mais acidentes com ciclistas. Contudo, atrelado a isto, vem a questão da desigualdade de direitos. Aqueles, considerados ‘minorias' ou ‘frágeis socialmente' são dotados de direitos que se sobressaem aos direitos dos demais.

Esquecemos, neste sentido, do desrespeito à própria cidade, da qual lhe foi retirado o direito ao planejamento urbano. São Paulo, por exemplo, é uma cidade que cresce pelo caos. Não há nenhuma forma de planejamento nas construções de vias públicas e, mais ainda, nos edifícios residenciais e comerciais.

Há bairros, como o de Santa Teresinha, na zona norte, onde estão sendo construídos 9/ 10 condomínios com 30/ 40 ou mais apartamentos por condomínio. A conta é simples de ser feita: estes apartamentos não custam menos de 800 mil reais, portanto, não morarão famílias sem carro ou que, necessária e preferencialmente, utilizam transporte público. Raras serão aquelas famílias com apenas um veículo. Teremos, por baixo, mais 500 carros nas ruas do bairro daqui alguns meses e as vias públicas continuam as mesmas de 30 anos atrás. E não adianta jogar esta responsabilidade para as construtoras, pois todos nós pagamos impostos para que as vias funcionem. As construtoras não podem, simplesmente, serem responsabilizadas pelas benfeitorias para mobilidade na cidade, pois assim, a barganha, para não dizer a corrupção, será inevitável. A pergunta a se fazer é: Quem dá o alvará para estas construtoras? Baseado em qual planejamento urbano os alvarás para construção desses condomínios são permitidos?

Agora, se a bicicleta, enquanto meio de transporte é a solução, então pensemos: e se todas essas pessoas resolvessem sair com bicicletas. Mães levando seus filhos nas escolas, crianças voltando para casa, executivos engravatados sobre bicicletas, médicos e enfermeiros chegando aos hospitais em suas bicicletas... Ou, então, coloquemos todos estes moradores no ônibus dos bairros ou no metrô, que já é insuficiente. Será que realmente a alternativa é deixar os carros em casa?

Alienados estão estes que contabilizam as ciclovias, que só servem para causar mais trânsito nos finais de semana. Para chegar a muitas ciclovias, as pessoas usam carros. Ou, senão, andam com suas bicicletas em ruas não apropriadas para isto.

Não vamos nos enganar! Grande parte das ruas não comportam ônibus, carros, motos e bicicletas. Muitas, mal comportam carros e motos.

Ao bel prazer de políticos e grupos isolados de pseudo defensores do meio ambiente contempla-se leis de direitos parciais, indicando a mais pura incapacidade de pensamento social e democrático.
São Paulo é uma cidade que não possui nenhum planejamento urbano. Não sei se por falta de profissionais habilitados para a atividade ou se é descaso próprio do percurso dos governos que temos tido.

Uma cidade onde proliferam construções imobiliárias, não se fala em projetos de novas vias ou aumento de linhas de ônibus – e o metrô está se tornando uma piada. Andamos em ônibus sucateados, com 10/ 15 anos de uso e que não parecem passar pelo roubo da vistoria (obrigatória para os carros). E para construção de vias de escoamento para saída dos bairros mais isolados seria necessário desapropriar centenas de casas. Contudo, enquanto isso, as construções crescem exageradamente e sem controle.

A cidade é suja, mal organizada, com ruas estreitas, mesmo onde há grande circulação de carros e ônibus. Mais uma vez, a solução feita através do "jeitinho brasileiro". Há regiões que não temos para onde "fugir": uma ou duas vias servem de escoamento dos bairros para o centro ou para outras partes da cidade.

A lei "cidade limpa" foi usada somente para usurpar pequenos empresários e comerciantes, pois ela não é base para as políticas públicas de verdade, onde a limpeza deveria ser generalizada, ou seja, ruas sem buracos, faixas e sinalizações bem visíveis, calçadas apropriadas para mobilidade, funcionamento de semáforos (que aliás é um artigo a parte de tão vergonhoso) – todas essas coisas significam organização , consequentemente mais limpeza e respeito.

A falta de organização e planejamento urbano é tão grave quanto os desvios de verbas da saúde, da educação e do transporte. Desrespeito, desorganização, sujeira, insegurança e caos caminham de mãos dadas. Estão atrelados uns aos outros.

O movimento pró-bicicleta, como mais um superdireito, torna-se aos poucos mais uma ação fascista que desconsidera o outro na sua vontade, necessidade e possibilidade, demarcando assim que a convivência democrática está na via do impossível. E ainda, tenta encobrir nossos olhos, semicerrados, do verdadeiro caos.

Além disso, andar de bicicleta não é para qualquer um, em qualquer lugar. Nas vias das grandes cidades é ainda pior. É preciso ter destreza, habilidade, cuidado e, principalmente, respeito à própria vida – e ainda, normas de segurança.

O que acontece hoje com os ciclistas é a mesma coisa que acontece com os motociclistas: falta de respeito com a própria vida, colocação de si como vítima incondicional, uso de manobras proibidas e arriscadas, falta de legislação coerente. Pessoas andam de bicicletas à noite, pelas ruas escuras, sem nenhuma sinalização luminosa e acreditam que estão certos, simplesmente, porque há outras pessoas que dizem que são minoria e fragilizados. Os motoristas devem adivinhar a presença de ciclistas e aquilo que vão fazer.

Sem perceber, as denominações grupais que tentam instaurar uma visibilidade diferenciada a partir da crença de serem exceções, somente comprovam que há uma regra, uma oficialidade, e, portanto, seus ideais e características nunca serão regras.

Contudo, mesmo sendo considerados minorias, para se valerem do bom convívio social, precisam ter regras específicas para existirem. Então, quais são as regras para os ciclistas? Poderão andar entre os carros como fazem as motos? Poderão cortar os carros, entrando na sua frente sem avisar? Poderão andar em qualquer faixa? Poderão andar em duplas, trios ou grupos na sua velocidade, desconsiderando o bom andamento do trânsito (pelo menos nos poucos momentos em que é possível exercer alguma velocidade)?

Então, quais serão os deveres dos ciclistas? Quais as habilidades deve ter um ciclista para andar nas ruas das cidades? Qual a idade mínima para circular com segurança? Com quais seus acessórios de segurança?

E o mais importante: sendo considerada a bicicleta um meio de transporte, que deve seguir normas de trânsito, qual será sua contribuição social, ou seja, quanto pagarão de imposto? E mais, qual o tipo de identificação deve ter uma bicicleta para reconhecimento de seu condutor? Ou os ciclistas são melhores e superiores em relação a todos os outros mortais que pagam ipva, licenciamento e usam placas identificatórias para poderem conduzir nas cidades? Impostos estes, que teoricamente, deveriam servir para melhoria do trânsito como um todo. Haverá multa para os maus condutores de bicicletas?

Será que estamos mesmos preparados para dividirmos espaço com mais um meio de transporte? Será que a cidade tem estrutura para comportar esta situação? Ou continuarão fazer o que sempre fazem: retiram o espaço de uns para dar a outros?

Acho mais esquisito ainda, o atrelamento que se faz entre educação e punição. O motorista – e somente o motorista – deverá ser multado. Talvez os grandes teóricos e os diversos pensadores da pedagogia e da educação atual devam ficar de cabelos em pé com a constatação de que todos nós humanos não nos educamos, a não ser quando há punição, ou multa. Somos seres incapazes de aprender pelo entendimento. Compreendemos a necessidade das coisas quando isto dói em nós, seja no corpo ou no bolso.

As leis de trânsito e o próprio funcionamento do trânsito das cidades comprovam que o atravessamento do aprendizado se faz pela dor. Portanto, podemos concluir que se as pessoas ainda aceitam o desconforto dos meios de transportes (e não é só isto, mas todo o conjunto de arbitrariedades que nos são impostas) é porque ainda não doeu o suficiente para que haja outra atitude. O povo brasileiro, ainda não se cansou, não sofreu o bastante.

Longe dos passeios automobilísticos, os carros são usados, principalmente, como locomoção para o trabalho e para a escola. Se pensarmos que durante as férias o trânsito melhora, podemos concluir (ironicamente, é claro) que a educação atrapalha o trânsito! Tal qual o trabalho atrapalha a mobilidade de toda a cidade.

As pessoas que utilizam o carro, o fazem por necessidade, por isso não vemos ninguém ficar no trânsito por prazer. Ninguém diz: "Que felicidade, 2 horas de congestionamento!" Daqui a pouco, os governos, nos trarão como solução o rodízio de trabalho: pessoas nascidas em dias pares, trabalham nos dias pares e pessoas nascidas nos dias ímpares, trabalham nos dias ímpares! Vamos esperar!

Por que escolhemos nos cegar?

Um dos grandes mitos conhecidos é a tragédia grega de Sófocles, "O Rei Édipo", onde dentre muitas conturbações, Édipo mata o pai e casa-se com a mãe, sem ter conhecimento deste parentesco. Mas sua punição por estes atos foi cegar-se. Ele fura os próprios olhos para se castigar do pecado. Mas dentre tantas interpretações que se somam a este mito, podemos pensar que o ato de cegar-se pode sugerir um não querer ver o que fez - não querer saber de seu comportamento, de sua responsabilidade.

Freud trouxe este mito para exemplificar a relação apaixonada da criança pela mãe. Porém, não quero trazer este ponto, que tão famoso ficou, mas que o senso comum insiste em apresentar com uma explicação vazia e sem consistência.

Portanto, proponho uma reflexão sobre o ato de cegar-se que o mito traz, como forma de expressão e atitude na vida individual e social. Édipo fura seus olhos, pois não suporta sua verdade, pois não aguenta saber que suas decisões, tomadas até então, geraram sua desgraça. Édipo é conduzido pelo concreto. E, de certa forma, acredita que sua punição alivia a dor da consciência.

É difícil enfrentar os próprios erros, conflitos, frustrações, decepções, fracassos sem querer cegar-se, também como forma de anular ou encobrir estes fatos. Diante deles é melhor nada saber, nada ver. 

Fechamos os olhos diante de acontecimentos que só nos prejudicam. A corrupção disfarçada de ajuda. É difícil tentar entender que tipo de sujeito é este que tira de quem não tem (como no caso dos donativos e verbas para as vítimas do desmoronamento da Serra no Rio de Janeiro).

Tentamos nos enganar e enganar o outro quando nos afetamos por coisas que em nada significam em nossas vidas. Na realidade, quanto menos queremos enxergar os problemas que realmente dizem respeito a nossa vida, mais nos importamos com as questões alheias.

Não furamos literalmente nossos olhos, mas nos cegamos como se produzíssemos uma  espécie de catarata, em psicanálise utilizamos o nome escotomizaçào, que significa uma recusa em perceber, enxergar a realidade a nossa volta.

Utilizamos o outro como forma de reconhecermos a nós mesmos, como um espelho que  nos devolve indagações sobre nossas próprias questões. Mas, há momentos em que usamos o outro como pura forma de projeção, onde despejo minhas frustrações como se dele viessem. É neste momento que coloco o outro como responsável por minha destruição  - e minha salvação.

Para não cegar-se, é preciso se implicar. E esta implicação não está nas afetações vazias, nas discussões sem propósito ou nas reclamações que não transformam. Repetir os fatos jornalísticos e sensacionalistas é como discutir as ações dos personagens das novelas. Não é, de maneira nenhuma, uma forma de implicação, ao contrário, é mais um movimento de se permitir ser enganado, ser objeto da exploração midiática, enquanto as questões mais profundas e relevantes que constroem ou destroem uma sociedade estão encobertos.  

A grande dificuldade em amadurecer, em crescer, em tornar-se adulto é apresentada nas micro e macro esferas da sociedade. Vivemos alternando as posições de sujeito e objeto. Ora, vamos em busca de nossas vontades, brigamos por alguma opinião e decidimos o que vamos fazer. Ora, solicitamos o outro para que nos cuide e proteja.

Mas nossa demanda pelo outro é posta, equivocadamente, na medida em que não queremos assumir nossas responsabilidades sobre nossas escolhas. Na medida em que, esperamos que o outro faça por nós, que tome conta da nossa vida, então assumimos a posição de objeto, que não fala, não reclama, não escolhe. E sua passividade contempla somente a vitimização.

Social e culturalmente estamos arraigados pelo discurso da vitimização, pois na medida em que coloco o outro como responsável por meus caminhos, ao mesmo tempo, me coloco como seu subalterno, sou submisso e, portanto, vítima de suas escolhas.

Os sujeitos que padecem da posição objetal escondem-se do constructo da conquista. Não buscam, não constroem objetivos, não focam um ideal. Ficam à espera de que os outros arranjem, de os outros os coloquem - movimento visível nos jovens contemporâneos que sempre esperam que caia do céu um emprego, por exemplo.

Esta forma de cegar-se acontece tanto diante dos assuntos individuais como dos assuntos coletivos. Temos, por exemplo, aquela mãe que mesmo encontrando maconha na mochila do filho, acredita na desculpa dele de que é do amigo ou de que é uma planta qualquer para aula de biologia. Ou ainda, a mãe que ao encontrar camisinha na bolsa da filha, continua jurando para as amiga que a filha é virgem.  Ou seja, não querem enxergar a realidade a sua volta e preferem ficar agarradas às suas convicções e crenças. Talvez por medo, talvez por vergonha ou por qualquer outro motivo a cegueira é a melhor forma de lidar com aquela situação.

Mas também há uma cegueira social, que revela nossa negligência. Isto acontece, principalmente, quando nos são mostrados fatos que sugeririam uma implicação, mas não passam de questionamentos de poucos e discussões ao léu.

Como foi o caso das ONGs que receberam recursos públicos, ou seja, meu e seu, e enriqueceram seus donos, desconsiderando completamente seus objetivos, sua missão, sua filosofia, que em geral tem textos altruisticamente construídos.   

Enquanto isso, o voluntariado é exaltado e não percebemos que, dentre suas ações solidárias, também há um outro viés, como mais uma manobra de desresponsabilização do Estado e seus governantes diante de seus deveres. Por sorte dos corruptos somos solidários, mas infelizmente, esta solidariedade somente facilitam os desvios.

A solidariedade é o caminho do bem, mas também é um caminho escolhido como forma de desculpa para si mesmo, diante da nossa não cobrança, de nossa passividade.  Há diversas formas de cegar-se e a solidariedade ou o voluntariado extremos podem ser, também, uma forma de cegueira de si mesmo. Na continuação dos passos de não enfrentar a própria realidade, a própria dor, a pura angústia.

Elizandra Souza

Psicanalista

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O povo gosta de sangue

Quando vemos o quanto o IBOPE sobe com as matérias relacionadas às carnificinas, nos perguntamos por que ainda há tanta contradição entre aquilo que diz a população e aquilo que ela permite ter como parte de sua vida.

Nestes casos violentos, o movimento da população é sempre de expansão da comunicação e da mídia, numa exaustiva exploração. Freud, estaria certo, somos selvagens primitivos, que só podemos ter convivência social pelo aprendizado e internalização de estruturas simbólicas, conquistadas pela "castração" (num querer dizer, você não pode tudo).

Na exploração midiática dos massacres, vemos emanar este primitivismo, que é nosso, está aqui, em nós, em algum lugar. Esta energia que impulsiona um interesse não é visto somente quando falamos de casos violento ou de massacres, num entendimento de que quanto mais sangue melhor.

Seja pelo interesse nos fatos exclusivos de crimes chocantes, onde os pedaços da carne alheia fazem o desejo pulsional se movimentar, seja na necessidade canibalesca de se aproximar, tocar, abraçar ídolos, artistas ou famosos em geral, seja no prazer visceral (e inconsciente - só para não se culpabilizar) com a visualização de casos sangrentos. E quem muda o canal da tv? Ou desconsidera um e-mail exclusivo de vítimas esquartejadas por acidentes ou assassinatos?

Muitos famosos andam com seguranças, simplesmente por que o "amor" mata. Se não fosse esse esquema seria como carne jogada aos leões. Por "amor", por fanatismo, seja lá pelo nome que for, um famoso pode ser morto sufocado ou dilacerado pelos seus fãs, ou mesmo por repórteres e paparazis. E ainda, haveria discussão sobre quem ficou com a parte mais especial. É o sangue que nos corre nas veias que nos mantém vivos e, como canibais, visuais ou táteis, é pelo sangue do outro que eu mostro que há sangue correndo em mim.

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Este é o primitivismo que apresentamos, mesmo sem saber ou sem querer, a todo momento na vida, naquilo que escolhemos para assistir na tv ou na internet, ou lermos nos jornais e revistas.

Como animais famintos assistimos e nos interessamos pelos detalhes mais sórdidos e mórbidos. E, ainda, que se negue, há sempre um querer saber. Daí a exploração de programas e videos que revelam a degradação de corpos: acidentes nas ruas, tiros à queima roupa, o corpo encontrado sem algumas partes... E se a tv não mostra tudo, com certeza, alguém vai encontrar na íntegra as cenas na internet, e irá distribuir e terá milhões de acesso.



Isto é próprio do ser - apesar de existirem teorias que dizem o contrário. Mas é no ser que está esta faísca de carnificina, de violência. Cada um de nós traz consigo este impulso que nunca será completamente extinto e sempre tentará encontrar meios de se manifestar.

Pela educação, pelo aprendizado, pela internalização de símbolos conduzimos esta faísca quando se torna chama. Contudo, quanto menor for a oferta de elementos desviantes, maior será a emanação do impulso de forma primitiva (não social).

Para a Psicanálise, isto significa a queda do simbólico. Ou seja, não estamos mais sabendo usar elementos simbólicos para nos expressarmos. E quando digo expressão, não é somente no sentido de agir, mas é no sentido de indicativo de direção. Tudo o que escolhemos: roupas, comportamentos, palavras, diz algo sobre nós.

Portanto, utilizar-se de mecanismos simbólicos é permitir que não haja represamento de maneira tal que quando for descarregado não seja de forma drástica, impulsiva, agressiva, violenta, destrutiva.

Não precisamos assassinar ninguém para expressar nosso prazer no sangue alheio. O fato de ver, ou mesmo de participar através de manifestações afetivas, já nos conduzem a pensar no quão ainda é primitivo nosso modo de expressão pulsional.

Por isso, há necessidade do simbólico, da linguagem. Para viver em sociedade é preciso ter formas de manifestação afetiva, seja de amor, ódio ou indignação que não exale somente a degradação do ser ou a negatividade que se dirige para a destruição da sociedade.

Mas longe de me afastar do início do texto, retomo o ser primitivo, que insiste em aparecer, principalmente numa estrutura sem Lei. Ou numa sociedade sem normas, valores, regras, delimitadores e condutores.

Ainda que os idealistas acreditem que há possibilidade de ser autônomo, dono de sua própria regra, não será possível cegar-se à necessidade atual de leis e normas para regerem a vida social. Assim como, não há como negar que nosso prazer incide naquilo que há de mais primitivo no ser, como se nos restaurasse às formas originárias.

Elizandra Souza Psicanalista

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quando todos são alienados

Viver de luz, de amor, da simplicidade da natureza, da bondade que é crença da falácia humana, supõe o afastamento da realidade, da sociedade e da cultura a qual estamos inseridos. Se nosso contexto indica a profusão do consumo, do espetáculo e do individualismo, isto significa que tanto a absorção total como o afastamento fazem parte da mesma alienação. A distância deste materialismo, que nossa sociedade estipula, provoca desconhecimento de suas ações, pois não é possível acreditar-se consciente social, política e economicamente se a paixão pela ignorância dos ditames dos costumes é ressaltada.

Manipulação tal ou pior que o consumismo exagerado. Por outro lado, para que uns vivam de prazeres é necessário que outros produzam (como os faraós, os imperadores, os escravocratas). Nosso país sofre com o alto grau de assistencialismo que o governo implanta, onde o único aprendizado é que o sujeito não precisa mais ser responsável pelo seu sustento, pela educação de seus filhos, pelo lugar em que vive etc. Tudo é dever do governo, mas quem paga por isso são aqueles que sustentam o Estado, ou seja, nós, consumistas, empregados e empregadores, que trabalham 4 meses do ano para pagar impostos.

Aqueles que acreditam na utopia do mundo perfeito, na transcendência do material, na possibilidade de viver para além dos pesares do corpo, num infinito religare, desconhecem sua própria condição de produtor, consumista e pagador. A não ser que se fechem em sociedades autossustentáveis e se marginalizem à sociedade vigente, estão todos inseridos na mesma formação discursiva. É possível se voltar para a simplicidade da vida, para paz interior, enquanto existem pessoas engravatadas, em saltos altos, enfurnadas em seus escritórios e queimando seus neurônios para conduzir bons negócios, para que outras pessoas possam sustentar suas famílias.

Qualquer um adoraria cuidar de suas plantas, seus cachorros e gatos, seus pássaros, passar uma tarde qualquer na tranquilidade de um parque em contato com a natureza ou mesmo curtir um sofá, sem se preocupar com as marcas de roupas e sapatos. Mas qualquer um adora e consegue, se há um outro quebrando a cabeça ou suando o corpo para pagar as contas de água, luz, telefone, internet, celular (tendo aparelhos modernos, é claro) ; se há um outro que paga o carro, a gasolina, o ipva, o seguro; se há um outro mantendo estudos, materiais escolares, alimentos, roupas, manutenção de casa, consórcios e financiamentos; se na doença pode-se contar com plano de saúde, médico particular, medicação ou mesmo indicação para um hospital público (geralmente destas pessoas consideradas consumistas e materialistas).

Talvez estas pessoas que trabalham demais, que se preocupam em pagar contas e não só as suas, mas que se preocupam com a mantença de outras famílias, que investem suas energias em resolver os problemas éticos, estéticos, sociais, culturais, corporais e principalmente financeiros de outros, devessem deixar de se desgastar tanto, de aumentar seu colesterol, de ter dores nas costas e na cabeça e dizer para todos: “Cada um com o seu problema” ou “Você não é problema meu” ou “Cuide da sua vida sozinho” ou ainda “Vou trabalhar só por mim, por meu prazer e para o meu bem-estar”.

As pessoas que vivem e dependem de seu próprio trabalho, que pagam suas contas e ainda que se preocupam com o bem-estar de outros têm todo o direito de “gastar” com boas roupas e sapatos (e se puderem comprar de suas marcas preferidas podem fazê-lo), têm o direito de ter carros excelentes e jantares em ótimos restaurantes. Não é errado querer coisas boas, o errado é querer coisas boas a custas do trabalho de outros.

O sujeito da linguagem

A linguagem, geralmente, é concebida como instrumento natural de comunicação humana, que surgiu na própria evolução da espécie, e é tão contingente quanto ela mesma ou qualquer dos recursos que ela utiliza para a sua preservação.

A aquisição da linguagem é caracterizada por etapas que vão do balbucio e da constituição dos primeiros repertórios de sons até a emergência da consolidação de formas gramaticais e da constituição de uma variedade de palavras.

Para melhor compreender o percurso da aquisição da linguagem, é importante e fundamental, levar em consideração também a natureza e o nível do desenvolvimento da linguagem na criança, em termos de conhecimento e de funcionamento.

Em idades precoces a comunicação é, sobretudo afetiva e inicialmente extra-verbal. Passando por seus corpos e refletindo sentimentos e emoções. Esta comunicação se realiza, sobretudo durante os cuidados maternais. O trabalho desta comunicação é estabelecer um diálogo, um acordo afetivo que se caracteriza pela harmonia e sincronicidade dos envolvidos (criança e cuidador ou mãe/bebê), que acontece durante os cuidados e as brincadeiras.

A criança em idade pré-escolar ainda não adquiriu o todo da linguagem, ou seja, ainda não domina todos os símbolos e articulações fundamentais da linguagem, o que permite-se manipular diversos elementos da linguagem. Dentro do contexto escolar é favorecido o ensinamento da língua e de seus instrumentos de conhecimentos através de recursos pedagógicos.

A utilização de substituições e combinações na língua caracteriza movimentos da criança com relação à linguagem. Num primeiro momento os enunciados da criança precisam ser interpretados pelo adulto para ter uma significação e prosseguimento. No segundo momento a criança toma a fala do outro como referência, e incorpora fragmentos dessa fala, mas já demonstra certa singularidade. Disto decorre posteriormente a fala mais complexa da criança com as pausas e interferência, assim como as tentativas de argumentação, numa posição de possibilidade de se escutar.

A linguagem não é a simples comunicação, mas o que insere o sujeito em seu meio, pois cada palavra não significa em si, mas traz o aporte de significantes necessários para sua constituição. São estes significantes que revelam o que é o sujeito. Porém os significantes surgem e são atuantes somente na presença de um outro, tanto de um outro significante como de um outro – pessoa – a quem se dirige, um outro sujeito.

A linguagem é uma produção determinada pelo momento histórico, nas suas contradições sociais e conflitos ideológicos – de classe, de gerações, de gênero, de grupos étnicos etc. Ela é produto inconsciente, pré-consciente e consciente desse jogo do ser com o mundo.

A tomada de palavras sugere um aporte de significantes, que vão surgindo pelos processos de identificação dos elementos inscritos no inconsciente, sejam imagens ou símbolos. De acordo com Lacan a identificação imaginária tem a ver com a origem do eu, enquanto que a identificação simbólica origina o sujeito do inconsciente, que vai fazer relação com a imagem do eu.

Quando diz de si através do ‘eu’, o sujeito aponta sua inserção na história, deslizando sob os significantes e seus significados. O sujeito é representado por um significante para outro significante. A linguagem instala a ordem simbólica no sujeito e possibilita a produção dos significantes que guiaram sujeito no decurso de sua vida e nos discursos. Todas as formas de expressão do sujeito são derivadas da cadeia de significantes.

Para a psicanálise aprender a ler e escrever tem a ver com sentido. Como a linguagem é fundamental para a constituição do sujeito, o aprendizado necessariamente passa pelas questões afetivas, de subjetivação. O inconsciente não existe sem linguagem e a linguagem é condição de existência do inconsciente, portanto aprender a operar com as letras e as palavras têm relação com a subjetividade. A criança que ainda não encontrou o caminho da subjetividade, que não operou com o recalque, nem entrou no campo do simbólico, fica impossibilitada de aprender.

Através da palavra, o sujeito apresenta o que está latente no seu inconsciente, que marca sua falta, revela-o na sua incompletude e denuncia seus conflitos. A percepção de si mesmo e da forma como o sujeito se expressa, também aparece nestes momentos em as palavras se manifestam.